quarta-feira, 30 de agosto de 2017

"O Monstro"




O "crepúsculo matutino" resulta da iluminação da atmosfera pelo Sol, que apesar de escondido, já está próximo do horizonte, o "crepúsculo vespertino" acontece ao anoitecer, quando o sol se esconde no horizonte mas a sua luz permanece visível.


   A luz influencia os ciclos de vigília, o sono, mas também o humor. Baixa luminosidade provoca uma quebra na produção de serotonina (químico natural do cérebro que afeta o humor). Quanto menos serotonina, maior a tendência para a tristeza e a depressão, enquanto que níveis acrescidos deste neurotransmissor aumentam o estado de satisfação. Serotonina, a hormona da felicidade!

   Ao entardecer a luz do dia desvanece-se. Perante o “crepúsculo vespertino”, entre o azul do dia e o escuro da noite, sinto-me vulnerável e fico mais próximo dos meus pensamentos. Procuro distrair-me, acender uma vela aromatizada e ouvir uma música relaxante.

  Então reflicto que as minhas noites têm-me incomodado. Não as noites em si, mas os pesadelos que tenho tido. Será um alerta?

   Quando me deito, adormeço com dificuldade, depois de mil voltas na cama. De forma recorrente, o meu inconsciente leva-me para uma floresta, com árvores frondosas e fortes. Um local escuro e temerário, onde caminho. Paro, repetidamente, no mesmo local, onde numa casa entro. Nessa casa, há uma presença que sinto como um monstro, uma espécie de criatura lendária, assustadora.

   Procuro aproximar-me para ver melhor e reparo que o monstro está imóvel. Não há qualquer inquietude com a minha presença. Ao aproximar-me mais, vejo que não é uma figura para-humana. Tem uma forma anatómica, extensa e com circunvalações. Com vitalidade, aparentemente, abalada. Vejo que sofre. Assemelha-se à forma de um cérebro.

   Questiono-me. Qual será o significado deste sonho? O que esta mensagem poderá significar para mim? Tenho-me ocupado com pensamentos negativos, sentido tristeza e alterações intestinais. Que relação poderei estabelecer? O que quero dizer a mim mesmo?


   Tenho lido bastante sobre este assunto. Agora, recordo que há uma teoria que afirma que cerca de 90% da substância responsável pelo nosso bem-estar é produzida nos intestinos. Há especialistas que denominam o intestino como o segundo cérebro.


   Voltei a reflectir, o sonho conduzia-me a este problema: A minha constante tristeza. Eu não quero “dois cérebros” doentes. 


Passado algum tempo, o sonho regressa. Percorro a floresta que já não me assusta. Paro à porta da casa, mas não entro. Se não deixas a escuridão ela também não te deixa, por isso, vou experienciar outros caminhos.


      Quando olhamos muito para dentro de um monstro, arriscamo-nos que ele também olhe para dentro de nós…



                                                   Fotografia: Falésia da Fonte da Telha

 Por: Maria Aires e Sofia Moreira

Através de Técnicas comportamentais - cognitivas e Psicodrama pretende-se ajudar o doente no seu processo de lidar com a doença para que se torne mais Autónomo, com melhoria da Auto-estima e, consequentemente, da Qualidade de Vida.
   
Consultório: Latino Coelho 87, (Quintas-feiras das 13h às 18h) – Rua Latino Coelho 87, Lisboa
 
Contatos: 916088364 / 962657422

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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

"São Minhas"




Tomar consciência que adoecemos, um pedaço de maldição ou uma bênção?

Interfere seguramente na nossa forma de ser, estar e encarar a vida.

Ricardo tem uma doença crónica diagnosticada à relativamente pouco tempo. Um dos seus amigos regressa a Portugal após uma viagem pelo mundo. Ambos têm uma conversa em que falam um pouco sobre os pensamentos traumáticos de Ricardo. O seu amigo, consequência provável de uma experiência de vida multi-cultural, sugere-lhe que recorra a um Xamã, na expectativa de ajudá-lo a não sofrer tanto. Com a morada na mão resiste à ideia durante algum tempo mas acaba por ir.

Naquela casa era notória a vivência espiritual, com uma pitada de arte divinatória e curandeira. Num momento de êxtase e quase semelhante a um contexto sobrenatural, o Xamã questiona-o:

Xamã - Queres libertar essas memórias que te causam sofrimento e dor?
Ricardo - Não sei. Aquilo que me aconteceu, não vai deixar de existir.
Xamã - Não, não posso apagar o que aconteceu na realidade, mas posso apagar essas memórias.
Ricardo – Para quê?
Xamã - Se te livrares dessas memórias não achas que viverás mais feliz?
Ricardo - Não.
Xamã - Não?

Nesse momento refletiu. Dentro dele e apesar dessa dura pena de ter uma doença crónica sentiu que as vivências, as memórias, a dor, fazem parte da sua estória, do que é hoje, da sua individualidade. Recordam-lhe, a cada manhã, que tem conseguido contornar momentos difíceis. Reforça a sua capacidade de lutar, para manter uma vida comum e a sua atitude positiva é fundamental para relativizar o "resto". Fez uma catarse, "não quero desprender-me destas memórias".

Ricardo - Eu preciso das memórias da doença, todas. Fazem lembrar-me de que afinal, sou forte, perseverante, lutador e positivo. Dão significado à minha vida. São a minha estória.
Xamã – Mas, também, são compostas de tristeza e lembram sofrimento.

Ricardo - MAS SÃO MINHAS!

Há, segundos prolongados que nos remetem à integração forçada de acontecimentos involuntários. Uma eternidade que nos traz à memória sentimentos de ansiedade, medo, angústia, desnorte emocional e físico. 

Esta tomada de consciência recorda-nos o que nos marca e marcou emocionalmente.

O nosso estado de alma que se abala mas, também se renova.


                 Fotografia: Lagoa do Fogo|S. Miguel| Açores


 Por: Maria Aires e Sofia Moreira

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

Tenho uma Doença Crónica


    Por vezes vejo-me numa moldura a preto e branco. A doença toma conta dos meus pensamentos. Frágil, impaciente e menos alegre.
 
   A culpa é um sentimento que não me larga. Olho-me ao espelho e sinto-me menos interessante e confiante. A vitalidade desvaneceu-se, falta-me  vontade e energia.

   Há dias em que recuo, porque sou invadido por dores que me incapacitam. Há dias em que avanço porque as consegui aligeirar. Por vezes para estar em casa, no trabalho, com amigos e família faço um esforço sobre humano para me manter com um sorriso.

   Este meu estado, não é um cartão-de-visita. Por isso, tento proteger-me das perguntas alheias, principalmente por parte de quem desconhece a doença.

   Há rigor na toma da medicação e abençoo-a por existir. Levar a bolsa dos remédios para todo o lado imprime em mim rotinas que não posso esquecer.

   A minha qualidade de vida sofreu um revés. Foi fortemente abalada.
  
   Quando "ela" aparece não pede licença para entrar. Não vem com falinhas mansas ou pezinhos de lã. Vem com toda a sua imponência, como se fosse um tsunami que tudo leva à frente. Um aglomerado de sensações, alterações físicas,  psicológicas e penosas que precisamos cuidar.

   Porque eu sou muito mais do que a minha doença.
                                                           Fotografia:
                                                                                              Farol da Ponta do Arnel | S. Miguel| Açores
                                                                                              Foto by: Fátima Alexandra Silva
 
 


 Por: Maria Aires e Sofia Moreira

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