terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A viagem



A ansiedade está intimamente vinculada à forma como interpretamos as situações de vida e que não se distanciam quando temos uma doença crónica, pelo contrário, agudizam-se.
Aquilo que poderia ser vivido num contexto prazeroso torna-se numa checklist antecipada. Por exemplo, quando viajamos. No caso do doente crónico, não basta uma mala de roupa e produtos de higiene. Há necessidade de aprovisionar a medicação suficiente. Ter o cuidado de mantê-la em condições e de não a perder durante a viagem.
 
Alguma informação clínica e pesquisa sobre os serviços de saúde disponíveis no nosso destino poderá incutir-nos mais confiança e, por certo, aproveitaremos com mais bem-estar.

Gosto muito de viajar. Conhecer cidades, praias, climas, pessoas, culturas, formas de estar e de sentir diferentes da minha. Faz-me evoluir.

A viagem mais marcante foi a Salvador, no Brasil. País abençoado de clima quente, gente fogosa e boa comida. Contudo, quando se tem um problema de saúde – com limitações na alimentação - convém comer com moderação.

Fui com uma amiga. Salvador é uma cidade lindíssima. Muito mística, com as Mães de Santo. O Dique do Tororó, único manancial natural de Salvador e os seus Orixás, figuras ancestrais africanas que correspondem a forças da natureza.

Nesta estadia no Brasil fomos também uns dias ao Morro de São Paulo. Ilha que fica sensivelmente a três horas de barco de Salvador. Martim Afonso de Sousa, militar português desembarcou nesta ilha em 1531 durante o período colonial brasileiro.

É uma Ilha ainda em estado “virgem”. Praias desertas de areia branca, palmeiras generosas e água quente. Tem locais rústicos e calorosos para pernoitar. Alguns restaurantes, um posto de turismo, outro de primeiros socorros e toda uma ilha para desfrutar.

Eu queria usufruir de tudo mas o meu primeiro pensamento foi – “E se me sinto mal? Estou longe de Salvador”.

Se tinha tanta certeza para onde ia, porque fiquei tão perdido?

Verbalizei os receios à minha amiga. Conversando, tentou tranquilizar-me. Procurei descontrair mas, estes pensamentos acompanhavam-me.

No primeiro passeio na ilha, fomos de barco até uma praia paradisíaca que tinha árvores de caju. A bordo fizemos amizade com dois irmãos, um rapaz e uma rapariga. Na praia, dentro de água, a relaxar, tinha a meu lado a rapariga que acabara de conhecer. Durante a nossa conversa, por curiosidade, perguntei-lhe qual era a sua profissão. Respondeu-me que era Médica!

Naquele momento olhei para o céu e sosseguei pois, às vezes, ansiamos por algo que nos tranquilize e vem sobre esta forma.

Num destino para além Atlântico fui abençoado. Naquele momento, senti que o mundo suspirava comigo, para mim. A presença, a mão e sabedoria de alguém faz a diferença positiva. Não há coincidências e regozijo-me por ser digno desta fé.

Contei-lhe sobre o meu problema e falámos um pouco sobre o assunto. No dia seguinte, conhecemos outro casal também muito acolhedor. Os dias passados foram sempre na companhia destas pessoas afáveis.

Tudo correu bem. Tive uma estadia inesquecível. Foi bom ter viajado, ter-me aventurado em alto mar. Às vezes, vivemos numa prisão construída por nós.

Há dias que não se repetem. Quando deixámos a ilha, os nossos amigos ainda ficaram. O Catamaran partiu e eles estavam no cais. À medida que me distanciava, olhei-os e acenei com a mão. Com os olhos humedecidos despedi-me com a certeza de que nunca mais os veria.

Sim, é bom viajar! Não só para vermos coisas novas mas, também, para trazê-las para casa e partilhá-las com quem amamos.

Os barcos ficam seguros no cais, mas não é para isso que são construídos.

Fui feliz numa viagem para um destino. Vim feliz com o coração cheio de maresia e saudade com uma parte do mundo impressa em mim.

Às vezes, pensamos que estamos longe de casa, mas afinal estamos longe de nós próprios.

Por: Maria Aires e Sofia Moreira

Através de Técnicas comportamentais - cognitivas e Psicodrama pretende-se ajudar o doente no seu processo de lidar com a doença para que se torne mais Autónomo, com melhoria da Auto-estima e, consequentemente, da Qualidade de Vida.
   
Consultório: Latino Coelho 87, (Quintas-feiras das 13h às 18h) – Rua Latino Coelho 87, Lisboa

2 comentários:

  1. Gosto muito de viajar com a vossa escrita. Vocês são brutais. Obrigada! 😘

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  2. ❤🌻💐❤🌻💐❤🌻💐 és linda!!!

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